quinta-feira, 25 de março de 2010

Na hora do recreio IV

PEC, Comissão de inquérito…
- Menino Sócas, menino Sócas!
- Vou já, senhora professora. Estou a acabar de ler as últimas linhas do PEC.
- As últimas linhas? O menino ainda não o leu?
- Não tive tempo senhora professora!
- Então não foi o menino que fez o PEC?
- Encomendei-o a uma Agência Financeira de Rating, senhora professora?
- Isso é um grande PECado, menino Sócas! Gastar dinheiro com Agências?!
- Ó senhora professora, ele não sabe fazer nada! Compra tudo feito com o dinheiro dos nossos impostos! É uma vergonha nacional!
- Calem-se meninos da oposição!
- Estão sempre a atacar-me, sempre a atacar-me, senhora professora!
- Para que servem os seus ajudantes: os ministros, os secretários…?
- Andam a lutar contra a crise, senhora professora.
- Contra a crise?
- Contra a crise e o desemprego!
- Não percebo menino Sócas! O menino não disse já mais do que uma vez, que a crise estava a passar e que o desemprego estava a diminuir?
- Eu ainda não estava convencido senhora professora, mas se toda a gente acreditasse…!
- Ele só diz mentiras, senhora professora! É só mentiras! O PEC é uma aldrabice que traz Pouca Energia e Confiança!
- Tenham juizinho! O que diz o PEC menino Sócas?
- É um Programa de Estabilidade e Crescimento, senhora professora!
- Não é nada disso, senhora professora. O PEC é o País Encalhado na Corrupção?
- Ó senhora professora, isso não é verdade!
- É verdade sim, senhora professora! O Sócas está metido numa série de embrulhadas e de suspeitas! Tem que ir à Comissão de Inquérito!
- Eu nunca recebi dinheiro por baixo e às escondidas. Recebi sempre muito por cima!
- Pois é, pois é! Nós no PSD já sabemos: “quem cabritos vende e cabras não tem de algum lado lhe vêm”!
- Isso é inverter o ónus da prova! Ó senhora professora, só me sabem atacar! Ninguém tem provas!
- Ninguém tem provas?! O país está na sucata e os gestores levam milhões!
- Ó senhora professora, os bons gestores devem ser bem recompensados!
- Bons gestores?! Ah! Ah! Ah! Com grandes curricula!
- E vocês? Pensam que têm bons gestores no PSD? Olha agora?!
- Muito melhores do que os boys! Querem ver?! O PEC é o Prémio pelo Esforço e Competência para boys?! Não é?!
- Só se for o esforço em meter ao bolso o dinheiro dos pobres, dos reformados e dos desempregados! Este governo apoia o Capitalismo Explorador da classe trabalhadora!
- A oposição está toda, em Bloco, a atacar-me, senhora professora!
- Os gestores metem tudo ao bolso enquanto o povo passa fome! “Eles comem tudo e não deixam nada”!
- Os bolsos dos gestores são privados, senhora professora! Ninguém lhes pode tocar!
- Os bolsos são privados mas estão cheios de corrupção!
- Pois é, nós do PC e do Bloco é que temos razão! Este PEC é um Programa de Exploração da Classe operária.
- Ó senhora professora, a oposição não nos deixa governar! Só querem destruir!
- A luta continua, o Sócas para a rua! Quem paga a factura são sempre os mais pobres!
- Este PEC é um Programa de Endividamento Compulsivo! O Sócas quer entregar o país, ao desbarato, nas mãos do grande capital!
- Ó senhora professora, a oposição é irresponsável, não quer combater a crise!
- O governo enterrou o país no pântano, a culpa não é nossa! Já não ganhamos para comer e não temos nada para vender!
- Ó senhora professora, só me querem achincalhar! Querem-me humilhar na Comissão de Inquérito!
- Não queremos achincalhar ninguém! Só queremos apurar toda a verdade! Toda a verdade!
- Eles estão a apertar-lhe o cerco menino Sócas! Como é que vai sair desta embrulhada?
- Eu já esclareci tudo, senhora professora! Nunca interferi na comunicação social nem nos negócios das empresas!
- É mentira! Ele é mentiroso! Queremos apurar a verdade!
- Só me querem derrotar com puro ataque pessoal! Eu já esclareci tudo!
- Não é verdade, senhora professora! Ele interferiu! Esteve uma hora a telefonar para que o director não publicasse a tal notícia!
- Não a credito, menino Sócas! É verdade o que diz a oposição?
- Eles inventaram isso só para me atacar! E as escutas são ilegais e são só conversas privadas!
- O que é que o menino Sócas vai fazer se o PEC não passar?
- Este PEC não passará! Queremos um novo PEC – Programa Enérgico de Combate às políticas do PS.
- Crucifiquem-no! Crucifiquem-no!

sábado, 20 de março de 2010

Tristes cenas

Vergonha par(a)lamentar
Alguns deputados socialistas protagonizaram um acto vergonhoso ao fecharem, com estrondo, os computadores depois de o Presidente da Assembleia, Jaime Gama, ter respondido ao deputado José Lello, que se queixava de invasão da sua privacidade por parte dos fotógrafos e jornalistas que desempenhavam, ali, o seu trabalho. Estas cenas de insolência e de falta de respeito desprestigiam o órgão representativo, por excelência, de todo o povo português e dão uma péssima imagem do carácter de quem se diz seu representante, seu servidor e defensor dos seus mais legítimos interesses.



O exemplo deveria vir de cima, mas de facto não é isso que acontece e por isso não é de estranhar que todos os dias sejamos confrontados com notícias dos mais diversos tipos de violência. Como havemos de querer que os alunos não sejam agressivos (bullying), sejam disciplinados e empenhados nas aulas, se quem os representa não dá o exemplo?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Feitiços?

Virou-se o feitiço contra o feiticeiro?
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Liberdade de expressão?

Jornalismo de buraco de fechadura
O senhor primeiro ministro lamentou-se, indignado, contra uma certa forma de fazer jornalismo a que chamou “jornalismo de buraco de fechadura”. Quer isto dizer que certos jornalistas se  terão colocado a espreitar pelo buraco da fechadura para relatar assuntos da sua vida privada, o que é uma infâmia, abusando da liberdade de expressão. De facto, esses tais jornalistas não têm mais nada que fazer senão coscuvilhar e "calhandrar", em vez de relatarem a excelência da governação socialista, o seu eficaz combate à corrupção e a criação, primorosa, de um conjunto de condições de prosperidade económica que fazem com que todos os portugueses vivam felizes e satisfeitos, de tal modo que, de vez em quando, até mostram essa felicidade nas ruas de Lisboa, de uma forma clara e exuberante, sem necessidade de recorrer ao buraco da fechadura?
Mas esta semana houve um caso em que nem foi preciso fazer “jornalismo de buraco de fechadura”. Os jornalistas encontraram uma casa com as portas e as janelas abertas e as luzes acesas há vários dias. Ninguém pode acusar qualquer jornalista de espreitar pelo buraco da fechadura e cometer infâmias. A surpresa foi tal, que até a polícia foi chamada para confirmar que as portas estavam escancaradas. Mas a polícia terá cometido uma grande infâmia: é que entrou dentro da referida habitação, vasculhou a casa toda e retirou de lá uns quilitos de explosivos que, alegadamente, pertenceriam a alguns cidadãos espanhóis. A polícia não terá violado a privacidade destes cidadãos que até nem eram de cá e se encontravam ausentes? Que falta de respeito! Nem esperaram que os inquilinos chegassem e entraram sem pedir autorização! Não seriam aqueles quilitos de explosivos para fazer umas bombas de carnaval, para daqui a uns dias? Que infâmia!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Professores

Que dignidade?
A educação e os professores têm sido os assuntos mais falados na actualidade. Discutem-se agora, também, os horários dos professores. Para certas pessoas os professores não fazem nada, outros consideram que trabalham adequadamente, outros, ainda, reconhecem que têm uma sobrecarga de trabalho.
O trabalho do professor não se confina à sala de aula. Em geral, fora da aula os professores têm o dobro ou o triplo do trabalho: preparar aulas, corrigir testes e trabalhos de casa, elaborar planificações, investigar e actualizar-se, direcção de turma e muitas outras tarefas burocráticas que impedem, por vezes, o apoio à própria família.
Nem tudo é comparável, tal como os dedos de uma mão, cada um com a sua função. Não será fácil comparar o trabalho de um professor, por exemplo, com o de um vereador municipal, de um médico ou de um deputado.
Foi notícia há algum tempo, a situação de um vereador da Câmara Municipal de Lisboa que tinha uns dez assessores ou mais. Actualmente cada vereador tem direito a cinco ou seis. Dá a impressão de que quem decide e quem trabalha não é o vereador mas sim os assessores. Não sei quanto ganha um vereador nem que horário de trabalho semanal tem que cumprir. Ora, os professores não têm assessores nem assistentes e o trabalho é cada vez mais exigente.
O trabalho do médico e do professor também não é fácil de comparar. Poderíamos considerar, apesar de tudo, algo em comum: o professor pretende “curar uma doença” universal – a ignorância – já que a cultura não se transmite hereditariamente. Divergindo nas metodologias e nas estratégias um professor também tem que fazer diagnósticos e avaliações, testes, exames complementares de diagnóstico e provas de recuperação. E se um professor exigisse, por um teste ou por um exame, tanto quanto um médico cobra por uma operação às cataratas, ao coração ou ao menisco? Há, da parte do professor, todo um processo exigente de elaboração de uma matriz, da formulação do exame e da correcção da prova que é considerado como parte integrante da sua actividade normal e não como trabalho suplementar.
Desde Abril de 1974 os deputados da Assembleia da República tinham direito a uma reforma vitalícia ao fim de oito anos. Sabemos que essa prorrogativa já foi revogada mas continuam a usufruir de um leque de privilégios muito superior ao dos professores que deveriam ser mais dignificados já que são eles que constroem, verdadeiramente, o país, transmitindo a cultura às novas gerações.
Hoje, mais do que nunca, ser professor é uma actividade de desgaste rápido. Em muitas situações têm de desempenhar as funções de pai, de mãe, de psicólogo, de psiquiatra, de polícia, de bombeiro, de soldado, etc. Toda a formação do cidadão é encargo natural dos professores. Se se nota uma lacuna nesta ou naquela área, a expressão mais ouvida é: “isso devia ser ensinado na escola”. O trabalho dos professores devia ser cada vez mais acarinhado, reconhecido e defendido. Uma escola pode servir para muitas gerações, não precisamos de construir uma todos os anos, mas cada nova geração que nasce é sempre um mundo novo a construir, no campo do conhecimento e da cultura. O edifico da cultura nunca está terminado, recomeça sempre que nasce uma criança.
Agostinho da Silva dizia que, hoje, as crianças nascem reformadas. O mundo está feito: estradas, casas, escolas, etc. Mas a cultura é uma tarefa que está sempre por fazer. Quando não houver mais nada para fazer, no mundo, haverá sempre bocas com fome para alimentar e mentes incultas para cultivar. A actividade docente é fundamental e é uma primeira prioridade que exige condições para ser exercida. Agostinho da Silva referia, também, que as condições do sucesso da educação são os três SSS: Saúde, Sustento e Segurança. Sob este ponto de vista não me parece que estejamos no caminho certo.

Os advogados e os médicos

Privilégios



O senhor bastonário da Ordem dos Advogados criticou, fortemente, o poder político, os “sucessivos Governos e as sucessivas direcções da Ordem dos Advogados perante a proliferação escandalosa de cursos de Direito em Portugal”, na sessão de abertura do I Encontro Nacional de Jovens Advogados.
Uma crítica, assim, parece significar uma enorme calamidade. Uma pandemia de advogados seria qualquer coisa funesta e, claramente, indesejável. Uma “proliferação escandalosa de cursos de Direito” e, consequentemente, de advogados constituiria uma praga que deveria, a todo o custo, ser evitada.
Também, há poucos dias, o senhor bastonário da Ordem dos Médicos apresentou um discurso semelhante, manifestando o receio de não haver trabalho para todos os médicos, dentro de alguns anos, devido à entrada de grande número de estudantes em Medicina, a somar aos que estudam fora de Portugal, o que poderá pôr em causa os “padrões de qualidade e de ética”.
Aprendemos que, na Idade Média, o clero e a nobreza eram classes cheias de privilégios que possuíam grande parte das terras do país (os coutos e as honras) onde o povo, mais numeroso, a arraia-miúda, trabalhava, servilmente, sob a forma de escravatura, para sustentar a riqueza dos seus senhores. Hoje, a mentalidade destes senhores que mandam nos advogados e nos médicos parece não estar muito longe da Idade Média. Os franceses tomaram a Bastilha, em 1789, para proclamar a liberdade, a igualdade e a fraternidade, mas, no início do século XXI, em Portugal, parece haver quem continue a defender a exploração, a subserviência e a desigualdade.
Quem tem o direito de proibir, impedir ou limitar quem quer que seja?
O agricultor, na natureza selvagem, tem que arrancar as ervas daninhas, afastar os animais que destroem as culturas e impedir o acesso a intrusos que lhe possam subtrair as colheitas que são o fruto do seu penoso trabalho. Nem Cristo, que é Deus, defendeu que se arrancasse o joio a não ser na altura da ceifa para ser atado e queimado enquanto se separava e guardava a boa semente no celeiro. Na sementeira humana quem tem o direito de controlar ou condicionar as justas opções vocacionais e laborais que sustentam a vida e dignificam a existência? Qualquer actividade, desde que não seja criminosa e/ou prejudicial, deve ser legítima e permitida. Nesta sementeira, os médicos e os advogados julgam-se superiores a Deus?
O excesso de médicos e de advogados é um mal, em si? Quantas profissões, equiparadas aos médicos, têm, actualmente, excesso de candidatos face às ofertas de emprego existentes?
Que culpa têm os jovens advogados de terem inventado o Processo de Bolonha? Este processo é válido ou não para todo o espaço europeu?
Se o senhor bastonário da Ordem dos Advogados teme a baixa qualidade dos advogados, no futuro, que dizer dos advogados de hoje, supostamente os melhores, que não resolvem os mais famosos e mediáticos casos da Justiça portuguesa? Afinal, para quê tantos receios se com os actuais ou os futuros advogados, a justiça continuará inoperante?
O excesso de médicos pode pôr em perigo os seus padrões de qualidade? Ou não será o contrário? E os padrões éticos? Quer sejam muitos ou poucos, os médicos não têm que fazer, todos, o juramento de Hipócrates? Será que a quantidade dilui a deontologia profissional?
Estes receios existem porque não há harmonia social. A corrupção, a paralisia da Justiça e a falta de ética social são, a meu ver, as causas de todos os desequilíbrios sociais e do desemprego. É preciso competência política de quem governa, exigência, rigor e força de vontade. A justiça e a ética devem começar na política. O exemplo tem que vir de cima.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Progressismo? III

Ou regressismo?
Toda a actividade política deste governo é como um balão que se encheu, deu nas vistas, e ao voar ou rebolar pelo chão, encontra um bico que provoca o seu esvaziamento. O problema é que o país não é o circo e quem sofre com tudo isto são os portugueses. Já me referi a este assunto e hoje voltamos a verificar um volte face, neste caso, em relação à justiça, depois de já termos assistido à alteração do estatuto da carreira docente e do modelo de avaliação dos professores, decisões que no ano passado constituíram um forte braço de ferro com a ministra da educação de triste memória.