quarta-feira, 27 de março de 2013

Sócrates: o mentiroso compulsivo



Um autista no grau mais elevado que se possa imaginar. Vive e sempre viveu na estratosfera. Irresponsável incorrigível. Viciado e fortemente inveterado na falsidade. Intolerante perante argumentos e factos que não lhe convêm. Afirmações gratuitas e ingénuas. Os outros é que são os culpados de tudo. Um ciclista de bicicleta de manutenção que se esforçou ao máximo para chegar à meta, mas só depois de ter perdido a corrida é que verificou que a bicicleta não tinha rodas. Depois acusa todo o mundo de ele próprio ter comprado uma bicicleta daquelas. As armas contra si são sempre ilegítimas, mas as mesmas contra os outros já são legítimas. Nunca reconhece erros próprios. Nunca errou e raramente se enganou. Quem o acusar de ter errado comete ataque pessoal e insulto.

Deve ser pura e simplesmente ignorado. É um ser completamente irrelevante, dispensável, ingénuo. Tem uma memória extremamente curta ou melhor, nem sequer tem memória. É um autêntico desmiolado. Ser sem consciência psicológica e /ou moral. Nunca reconhece a realidade. Vive sempre à deriva, governou sempre pela cabeça dos outros. O seu governo nunca tomou decisões erradas. A crise internacional é que foi culpada. Um autêntico espantalho, um cata-vento no governo. Nenhuma das suas decisões teve consequências negativas, aliás desconhece o que são consequências. A relação de causa efeito e impossível de ser comprovada no seu governo, mas quando se trata das atitudes dos outros já se pode verificar. Uma receita possível: pôr-lhe uma enxada nas mãos e obrigá-lo a sustentar-se com o esforço do seu trabalho, trabalho real e concreto.

Caso perdido, irremediável. Sem remissão possível. Sem perdão. Mas como quem não tem noção do mal que faz é inimputável, deveria ser internado num auspício para dementes.

Sócrates: o pecador arrependido?



Se Sócrates estudou Filosofia a sério, em Paris, a única razão admissível para ter decidido regressar tão depressa ao país, onde a maioria dos portugueses o desejariam ver atrás das grades, há muito tempo, só pode ser a de confessar todos os crimes, burlas, fraudes e favorecimentos ilícitos que cometeu durante a sua vida política desde que assumiu funções públicas em Portugal. Deve-lhe ter pesado, finalmente, a consciência. Prometeu progressismo, felicidade, cento e cinquenta mil empregos, e tudo o que de mais excelente se pode prometer na actualidade. Agora terá verificado que, afinal, meio país já emigrou, muitos estão no desemprego como num beco sem saída e outros recorrem ao suicídio. O país está a definhar, a morrer e a desfalecer tudo por culpa das suas políticas. José Sócrates não poderia continuar a sua vida de luxo e ostentação à custa de inúmeras vigarices, fraudes e ilegalidades enquanto os seus compatriotas morrem de fome, espoliados, oprimidos e sacrificados como os condenados às galés.

Provavelmente, hoje, José Sócrates poderá afirmar com conhecimento de causa que não recebe lições de moral de ninguém. Se estudou Filosofia a sério, em Paris, terá passado a pente fino todas as teorias morais elencadas nos mais famosos compêndios da especialidade. Um forte remorso ter-lhe-á pesado a consciência de tal modo que terá aceitado sem hesitações responder a todas as perguntas dos seus entrevistadores, gratuitamente, sem condições prévias, sem arranjinhos, sem limitações de assunto. Desta vez José Sócrates irá, finalmente, responder às vinte e sete questões que a Sra. Procuradora não teve tempo de lhe fazer em tempo útil, arrastando a investigação para que o crime prescrevesse.

Ainda para mais, a data é histórica e o tempo é favorável. Acabou de ser eleito um novo Papa que é o exemplo da simplicidade e estamos na semana Santa, a semana maior. Aproxima-se a comemoração da morte e Paixão de Cristo. Esta surpreendente decisão de regressar a Portugal, nesta data, não poderá estar relacionada nem com as futuras eleições autárquicas, nem com eleições presidenciais, nem com o reforço da oposição. Quem já conquistou o mundo, negociou com o diabo e enganou um país inteiro e quase toda a Europa não terá mais aspirações que justifiquem a luta pelo vil metal. Estaremos, logo à noite, perante o bom ladrão, que pregado na cruz dirige a palavra a Cristo e a Portugal moribundos? Resta saber se haverá coragem e capacidade para prometer que “Hoje estarás comigo no paraíso”.

Quem não aceitar esta imagem de bom ladrão, talvez aceite a outra do Zaqueu que subiu a um sicómoro e a partir dali prometeu devolver quatro vezes mais às suas vítimas.
As novas levas de emigrantes que enchem a capital francesa terão despertado este enorme remorso ao novo pecador arrependido que, do cimo do seu sicómoro de ostentação e de luxo, terá vislumbrado a miséria que ele próprio provocou ao seu país e ao seu povo. Esperemos para ver, hoje à noite.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A lei do aborto é a lei da crise



Camões propôs-se cantar, em “Os Lusíadas” os heróis da pátria designando-os como “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Se Luís de Camões vivesse hoje não teria, com certeza, heróis que merecessem tão ilustre poema. Pelo contrário os heróis de hoje, os donos do poder, os anti-heróis, são aqueles que, por obras execráveis se vão da lei da vida libertando, colocando todos os portugueses na mesma situação.
Diz a sabedoria popular: “vamos à vida que a morte é certa”. Ninguém, no seu perfeito juízo, deseja morrer e só espera que isso aconteça ao fim de uma longa vida. Mas em Portugal, apesar de toda a gente saber que a morte é certa, esta verdade absolutamente inquestionável, ainda assim, foi escrita, reforçada e aprovada, ao mais alto nível do poder, como uma lei fundamental que deve vigorar em todo o país. Como é que um governo que aposta na morte, apoia a morte e financia a morte, pretende que haja vida, haja futuro e prosperidade? Ou o governo governa para a vida ou governa para a morte, não pode governar para as duas coisas. Como é que um agricultor pode colher bons frutos se destruir a sementeira pouco depois de lançar a semente à terra?
Estamos perante uma lei inconstitucional porque todos têm direito à vida e pelo mesmo motivo esta lei é contra a declaração universal dos direitos do homem e contra o direito natural.
Mas o absurdo desta morte oficializada é que se pratica mesmo antes do nascimento. Estamos perante um enorme genocídio, uma matança de inocentes que configura um cenário de guerra em que se mata “por amor”, o que se torna ainda mais absurdo. O estado de calamidade em que se encontra o país e grande parte da europa e do mundo, que tem apostado nesta linha da morte, reflecte-se no caos, no desemprego, nas falências, na miséria e na fome. Aparentemente a vida corre o seu curso normal: a terra gira e dá lugar aos dias e às noites. As ruas, as praças, as casas e os campos parecem continuar nos seus lugares, mas por detrás destas aparências o mundo está em destroços e virado do avesso. As vítimas do genocídio clamam por justiça. Os gritos de revolta contra a fome e a miséria só demonstram que a guerra não está ganha e que os vencidos serão, no fim, vencedores.
A evolução tecnológica, cultural e científica que deveria permitir uma vida tranquila, farta e feliz não resolve, afinal, nenhum dos nossos problemas. Nunca a humanidade teve tanta capacidade de produzir riqueza como hoje, mas vivemos na miséria. Os gritos de revolta, as manifestações e as discussões ao nível do poder político só revelam o estado desta doença epidémica que alastra e contamina toda a sociedade. Se tudo estivesse nos seus lugares veríamos os médicos sem muito trabalho, sinal de que toda a gente era saudável, os advogados sem expediente, os bombeiros ociosos, os polícias folgados, etc. e por outro lado, veríamos todos os campos cultivados, as fábricas cheias de trabalho e as escolas repletas de alunos e professores. Mas, infelizmente o que observamos são as clínicas de aborto com as portas abertas para a morte, as maternidades encerradas, as estradas e auto estradas sem veículos, os cafés e restaurantes sem clientes e as fábricas na falência, em ruínas e os trabalhadores sem trabalho e a passar fome.
Ninguém pode matar uma águia peneireira, um lince da Malcata, cortar um ramo de sobreiro ou de carrasqueiro, ninguém pode derramar lixo poluente na água ou no solo ou destruir um ninho de perdiz, ninguém pode fazer nenhuma destas coisas porque será castigado por estar a destruir o ambiente, mas uma mulher pode, livremente, matar um filho. E se o fizer, não recebe qualquer castigo, mas pelo contrário, terá todo o apoio do estado. Enquanto o estado desvia dinheiro para pagar o aborto, silenciosamente, falta-lhe dinheiro para pagar aos seus funcionários, retira-lhes os subsídios de férias e de Natal, corta-lhes os vencimentos e pensões, despede quem precisa de trabalhar e sobrecarrega com impostos os que ainda resistem, tornando a vida insustentável.
Vivemos hoje num mundo impróprio para cardíacos mas, num cenário destes, não haverá ninguém que não sofra do coração, a não ser que tenha um coração de pedra.
Por mais medidas de austeridade que se tomem, por mais contas de matemática que se façam, por mais revoltas e manifestações que saiam à rua, por mais lutas sindicais que se desenvolvam para diminuir o défice e para resolver a crise, tudo será em vão enquanto o défice da vida for maior do que o da morte.
Num país em que grande parte do orçamento serve para financiar a morte, em que parte da medicina está ao serviço da morte em vez de estar ao serviço da vida, em que as empresas e as pessoas estão asfixiadas por todo o tipo de impostos, taxas e portagens como é possível sobreviver?

domingo, 9 de setembro de 2012

Abaixo a democracia da miséria e da morte


Esta é a chamada casa da democracia (Assembleia da República). Que democracia é esta que põe o povo na miséria? Que fazem ali 230 deputados que prometeram trabalhar para o bem do povo? Onde está o bem do povo? Que povo defendem e representam, se o povo está cada vez mais pobre e mais explorado, enquanto a eles nada falta? Quer façam muito ou pouco, bem ou mal, não lhes falta a comida na mesa, a casa para viver, carro para passear e muitas outras mordomias, enquanto o povo sofre, passa fome, trabalha no duro ou está desempregado e sem futuro.
Para que servem, hoje, a assembleia da república e o governo se quem manda em Portugal é a tróica?
Se se fecham escolas, centros de saúde, fábricas, empresas, lojas, etc., porque não se fecha também a assembleia da república? O país está a fechar, está a morrer, porque não se fecha também esta casa? Que falta faz? Grande parte da juventude já emigrou, outros querem emigrar e o aborto mata os que querem nascer. Muitas regiões estão despovoadas, as florestas estão queimadas e as autoestradas estão às moscas. Quando os velhos forem todos para o cemitério, ficam só os deputados. Para quê? Hoje, mais do que nunca, esta casa é inútil, é perversa e prejudicial:
Esta assembleia é inútil, porque as leis que nos governam são impostas pela troica e por Bruxelas. Não vale a pena discutir e debater seja o que for. Tudo está já, previamente, decidido pelos donos do dinheiro que nos foi emprestado.
E que utilidade têm as leis, que foram, ali, aprovadas ao longo de todos estes anos, se cada vez estamos pior? Que fazem ali duzentos e trinta deputados, assessores, comissões disto e daquilo, secretários, etc. etc., um sem número de gente inútil que está ali à custa do povo que cada vez mais se afunda na miséria? Isto não é um verdadeiro enriquecimento ilícito? Quais os resultados, por exemplo, das inúmeras comissões de inquérito, das audições e outras investigações feitas ao longo de todos estes anos de democracia? Quantas pessoas foram processadas, julgadas e castigadas? Isto não é uma autêntica fantochada?

Esta assembleia é perversa porque as leis, ali aprovadas, são a causa de toda esta miséria. Quantas vezes, em propagandas eleitorais, estes senhores, toda esta classe política, nos prometeu progressismo, felicidade, bem estar, sucesso, crescimento económico e muitos outros benefícios e facilidades quando afinal nos conduziram a todos para a penúria? A quem é que o povo vai pedir responsabilidades? Onde está a competência desta gente engravatada e bem vestida? Tirem a gravata que até parece mal. O povo está de tanga. O povo está na miséria. Vendam esses carros topo de gama que são do povo. Andem a pé. Entreguem o palácio ao santo que só ele nos pode valer. Estamos todos numa enorme calamidade. Estamos todos em estado de sítio. O povo está explorado e escravizado e não aceita mais impostos que só enchem os bolsos de grande parte dos políticos, que são autênticos carrascos do povo e parasitas alarves.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A prepotência das greves

Nesta pseudodemocracia em que vivemos as greves já não servem para reivindicar melhores salários, para protestar contra a exploração, a prepotência e abuso de poder da entidade patronal. Hoje a greve da CP em dias feriados é um autêntico atentado contra os direitos da maioria do povo português, contra as classes mais desfavorecidas que não têm outra alternativa senão os transportes públicos. A greve da CP é um autêntico abuso de poder e uma inaceitável prepotência de uma classe que trabalha, que tem emprego, mas não está para sofrer, para se sacrificar, para suportar a austeridade, como os funcionários públicos a quem foram retirados os subsídios de férias e de Natal e a quem cortaram no vencimento. Se a Constituição define o Estado Português como uma sociedade solidária, isso não é verdade em relação a esta classe que, alegadamente, presta um serviço público, mas na realidade o serviço que estão a prestar, como trabalhadores e cidadãos deste país é um mero serviço privado. Os interesses que comandam a sua luta e a sua acção são apenas e só os seus próprios interesses. Como são trabalhadores de uma empresa pública, quem lhes paga é o povo com o dinheiro dos impostos e o seu dever seria servir bem o povo, estar ao seu serviço e não o contrário, servirem-se dele, prejudicando-o. O povo é a entidade patronal que eles querem chantagear. Para que serve uma empresa de transportes se o povo não se pode servir dela quando precisa? Para que serve uma empresa que só dá prejuízo, não presta o serviço que deveria prestar e só existe para satisfazer os privilégios de quem lá trabalha? Não seria preferível fechá-la de uma vez, visto que o povo nada beneficia, mas pelo contrário, só tem prejuízo de milhões todos os meses?

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Grécia – a crise e pessimismo trágico


A Grécia sempre na vanguarda
Aprendemos nos bancos da escola que a Grécia é o berço da Filosofia que deu origem à chamada Civilização Ocidental, baseada no conhecimento, na competência e no poder da razão, defensora do sucesso assente no mérito, no saber e na iniciativa privada. A História da Filosofia assinala um conjunto de filósofos gregos como os maiores vultos do pensamento que traçaram a matriz da nossa cultura.
Nunca fui à Grécia. Os livros referem um país montanhoso, pobre, com uma baixa percentagem de solo arável, de clima quente e seco ou temperado, próprio da região mediterrânica, com muito sol, mar e praias de sonho.
Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do séc. XIX (1844-1900), estudioso da cultura grega, considerava que os gregos eram infelizes e por isso criaram a mitologia e a arte trágica para aliviar a angústia da existência. Duvido muito. Não sei se os gregos se sentiam mais infelizes e angustiados do que os outros povos. Toda a humanidade, desde sempre, se questionou e se questiona pelo sentido da existência. Talvez os gregos sentissem esse problema com mais intensidade, nos primórdios da civilização, por viverem no “paraíso” mas se sentirem no “inferno” porque tinham e têm um clima excelente, um sol brilhante e esplendoroso, um céu limpo e infinito, numa terra rodeada de águas cristalinas, mas não tinham, ainda, sabedoria suficiente para explicar a natureza, esse mundo tão belo, nem conhecimento (científico) que permitisse curar as doenças e suavizar o sofrimento e a fragilidade humana. Como é que um ser fraco, doente (como o próprio Nietzsche) e de vida efémera poderia gozar os prazeres da vida e da natureza sempre bela e brilhante? À máxima luz e beleza exterior do clima grego, imensamente claro e radiante, opunha-se, no espírito, uma enorme escuridão interior de ignorância, de angústia e de impotência. (a primeira questão da filosofia grega foi, precisamente: “o que é isto, a natureza?” – “Τί εστί φύσεος;”)
Esta oposição entre a luz e as trevas, a felicidade e a angústia ou o bem-estar e o sofrimento é uma questão essencial da existência humana desde o tempo primordial bíblico dos “Génesis” que apresenta algum paralelismo na maneira de ser dos povos da região mediterrânica, mais alegre e permissiva mas desleixada e pobre, e na dos povos do norte da Europa mais sombria e triste mas também mais exigente, rigorosa e rica.
Os dados biográficos de Nietzsche dão-nos uma imagem semelhante: depois da morte do pai, aos cinco anos, Nietzsche passou a viver num ambiente marcadamente feminino na companhia da mãe, da irmã, da avó e três tias, rodeado de mimo (o sol radiante da infância, o aconchego do paraíso). O miúdo efeminado não ficou, com certeza, bem preparado para enfrentar, na vida adulta, a dureza dos problemas (o trabalho, a doença e a responsabilidade: os espinhos e abrolhos fora do paraíso), de forma viril. Muito menos para seguir a vida religiosa (pastor protestante), de acordo com os desejos de sua mãe. Sendo uma pessoa extremamente emotiva e dada à sensualidade, sentia, por outro lado, uma grande angústia (e infelicidade) por causa da saúde frágil, debilitada pela sífilis, que lhe causava muitos dissabores.
Hoje a Grécia é o protótipo da crise, tal como antes, o da civilização. Que diria Nietzsche hoje? Que o problema é a angústia da existência como na Antiguidade? Que a vida é um absurdo? Que é preciso restaurar o espírito da tragédia, como solução, apelando à arte apolínea e dionisíaca?
Não deixa de ser estranho que Nietzsche tenha encontrado a solução para essa angústia de existência, que era, segundo ele, a causa da crise social e cultural do seu tempo, na antiga Tragédia Grega de Ésquilo (525/524 a. C.-456/455 a. C.) e Sófocles (497/496 a. C.-406/405 a. C.), a mais de vinte séculos de distância. Não só não encontrou no seu tempo qualquer solução como ainda considerou que toda a cultura ocidental desde Sócrates (469-399 a. C.) e Platão (428/427-348/347) até então era negativa e decadente. Esta fuga para um passado longínquo, para alguns, uma marca do Romantismo, mais parece uma infantilidade, um sinal de alienação e de incapacidade em enfrentar os reais problemas da vida.
A crise actual é, apenas, uma simples questão de angústia de existência? Na minha opinião é, fundamentalmente, um problema moral e de valores. Não é um problema económico e financeiro. Nunca a humanidade teve tanta capacidade de produzir riqueza como hoje. Não será, afinal esta crise, o retrato fiel da vida e da filosofia de Nietzsche?
Longe de ser uma solução para a crise, a filosofia do pessimismo trágico, da embriaguez dionisíaca, da crítica à moral, da rejeição do Cristianismo, do irracionalismo, etc., não é antes a causa da crise, o reflexo do facilitismo, da impunidade, da corrupção e da imoralidade da generalidade dos cidadãos e de grande parte da classe política que tem marcado as grandes opções, as estratégias e os destinos dos povos nos últimos anos e nos colocaram no inferno?
Aquilo a que Nietzsche chama a embriaguez dionisíaca não é mais do que a apologia da alienação e da irresponsabilidade. Para Nietzsche a vida não tem qualquer sentido, é um completo absurdo. Nietzsche não reconhece valores, ideais ou razões que motivem e justifiquem a existência. “Melhor fora não ter nascido” – diz. Se a vida não tem explicação nem pode ser minimamente aceitável, qual é a atitude a tomar? Só pode ser, segundo ele a criação artística na perspectiva da música, a aceitação da vida pela óptica da arte, única forma de atingir a verdadeira realidade (a metafísica do artista). No fundo, Nietzsche concorda, em absoluto, com o que diz o povo: “Quem canta seus males espanta”. Se a tradição filosófica sempre definiu o ser humano como animal racional, Nietzsche despreza completamente a parte racional e valoriza, somente, a parte animal, o corpo, a sensibilidade, a estética. Por isso, tudo o que seja derivado da razão, como normas morais, prescrições, verticalidade, imposições, rigor, etc., é completamente rejeitado e considerado decadente, negativo, anti-valor, retrógrado, etc. Só o agradável é sinónimo de bom, tal como o sensível e, principalmente, o sensual e todo o encantamento provocado pela música, a música popular, que faça esquecer o horror, que é existir. Se a existência é um contínuo suplício é preciso suavizá-la com alguma doçura que esteja ao alcance do corpo e da sensibilidade. Esse bálsamo, segundo Nietzsche, está na arte trágica que resulta da interferência de duas forças instintivas opostas, simbolizadas pelas figuras míticas de Apolo e Dionísio. Só a arte trágica permite “dizer sim à vida” apesar do absurdo. Apolo é o deus das artes plásticas, das imagens belas, do sonho, da imaginação, da harmonia, etc., enquanto Dionísio é o deus da embriaguez, do desmedido, do caótico e do uno (do esquecimento de si). Nietzsche, dotado e apaixonado pela música, pela fantasia e pela arte, mas, ao mesmo tempo, aterrorizado pela vida porque só lhe dá angústia e sofrimento, só encontra uma solução: agarrar-se ao piano, tocar e cantar até ao delírio; beber, fumar e excitar-se para lá dos limites, até se esquecer que existe. Temos aqui uma imagem do alienado compulsivo, do existencialista primário, sem projectos e sem consciência para não sentir angústia.
Os “hippies” da década de 60 do séc. passado são a imagem de Nietzsche num contexto mais alegre e feliz. Enquanto Nietzsche vivia numa angústia atroz e implacável, minado pela sífilis, sem uma réstia de esperança, rejeitando tudo o que fosse produto da razão, os dionisíacos do séc. XX já sentem os efeitos da felicidade industrial, do poder e do conforto da tecnologia, da medicina, do desenvolvimento e da cultura de massas proporcionado pela Ciência que Nietzsche tanto abominava. Estes dionisíacos amadores do séc. XX sentiam-se uns felizardos, livres como pássaros fora da gaiola, adolescentes em férias, sem deveres, sem trabalho, sem horário, sem responsabilidades porque os pais lhes pagavam a mesada, a economia era próspera e havia quem produzisse para que eles gozassem e satisfizessem os apetites e os instintos, livres de todas as angústias, de doenças desconfortáveis e de outras situações resolvidas pela pílula e pelos contraceptivos.
Nos nossos dias já não temos os “hippies” ao sabor do vento, a defender o amor livre (make love, not war) no meio da selva, a protestar contra a guerra do Vietname, a deambular numa autocaravana de mil cores, sem destino, de cabelos compridos e barba desgrenhada, a cantar e a tocar viola. Em vez disso, temos os “hippies” refinados e profissionais com aparência de gente séria, que não têm só “um amor e uma cabana” mas se instalam em resorts de luxo ou condomínios bem fechados na companhia de beldades de eleição, em orgias delirantes e diabólicas. Nos intervalos, passada a ressaca, estes dionisíacos de pacotilha ocupam as cadeiras do poder, na política, na economia etc., e prometem o bem estar, o progressismo e a felicidade, mas só sabem criar a desordem, a crise e o caos. Continuam a ser como adolescentes em férias, ingénuos, e incompetentes que vivem como parasitas do povo a quem prometem a igualdade e a democracia sexual, como a coisa mais importante da vida, sob todas as formas, estilos e géneros, com um ar grave e sério, como quem comanda os supremos destinos dos povos de forma honesta, com direito a todas as mordomias e privilégios.
É este o retrato da generalidade da classe política europeia, sem princípios, sem projectos e sem responsabilidades, que não sabe o que é trabalho árduo, porque nunca fez nada na vida e passou todo o tempo, desde a adolescência, em jogos de política partidária, nos corredores do poder, aproveitando os intervalos das férias, das farras e das diversões. O importante é gozar, aproveitar a vida e nada de imposições, de normas, etc. o que interessa é em ganhar votos a todo o custo independentemente de se cumprirem ou não as promessas e de se terem ou não as contas em dia. O mundo atolado em dívidas é a imagem desta perspetiva irracional da existência. Quem vier depois que pague. É esta a classe política que tem conduzido os destinos dos povos, nas últimas décadas, para o descalabro. A Grécia é o protótipo deste caos político e económico, segundo os ecos que de lá vêm, onde a corrupção e a irresponsabilidade não têm limites. Parece-me o exemplo mais perfeito do existencialismo de Nietzsche. Os países mais pobres e sem recursos são as primeiras vítimas.
Estes “hippies” refinados já não precisam da arte apolíneo-dionisíaca para nada, de recorrer à imaginação, e às imagens belas. Eles têm acesso directo à imagem e ao corpo, ao delírio e à excitação sem limites. A angústia (qual angústia?) é para o povo que tem que suportar a enorme carga de impostos, a austeridade e a penúria provocadas pelo desmando e incompetência desta classe de agiotas, abutres e sanguessugas.
A matriz da racionalidade, da competência, do rigor e da exigência que estava na base da civilização ocidental, desde a antiguidade, deu lugar à matriz da irracionalidade, do instinto, da volúpia e da irresponsabilidade. Era, precisamente, esta a tese fundamental de Nietzsche: a causa da crise do seu tempo era a filosofia do racionalismo socrático-platónico que tinha dominado a cultura ocidental desde o séc. V a. C. sob a forma do “optimismo teórico”, “socratismo estético” ou “intelectualismo ético” que confiava na razão e no indivíduo (princípio da individuação) e criava a ilusão da felicidade. Daí a necessidade de instaurar o espírito da tragédia grega, a arte apolíneo-dionisíaca e a magia do instinto como uma pulsão natural libertadora.
Na senda do dionisíaco, o reino da formiga deu lugar ao da cigarra. Daí a situação existencial de crise, em que vivemos, marcada pelo desemprego, pela ausência de valores, pelo materialismo hedonista, pelo lucro fácil, pela recessão e pela falência diária de empresas. É o retrato fiel da embriaguez dionisíaca colectiva. A política e a economia europeias são a imagem destes “valores” dominantes: a velha Europa é como uma prostituta falida, em fim de carreira, usada, gasta, velha, vivida, infectada e sem poder de sedução, que quer continuar a dominar o prostíbulo à custa de grandes e avultados esforços de maquilhagem, do “milagre” da cosmética e de grandes operações plásticas. A sua improdutividade reflecte-se na ausência de futuro, na esterilidade das soluções e na impotência generalizada para renovar a vida, as instituições e a credibilidade. Neste circo de “Sexo, drogas e rock & rol” em que vivemos, as tentativas de reanimação, as grandes “injecções” dos milhões do FMI, do BCE e de outras entidades, supostamente poderosas, são como grandes doses de viagra que já não produzem efeito, devido à astenia generalizada, à desnutrição e à podridão que ameaça todo o organismo. Temos diante de nós a imagem de Nietzsche, no fim da vida, doente, fraco e demente, agarrado a um cavalo prostrado na rua, maltratado, moribundo e sem forças, incapaz de socorrer e de reanimar. Também, hoje, assistimos, hipocritamente, a grandes preocupações ambientais em cimeiras mundiais, jornadas e acções de defesa dos animais e das plantas, enquanto o ser humano é desprotegido desde o nascimento, nos seus direitos e na sua dignidade ao longo da sua existência.
Estamos a chegar ao verdadeiro niilismo, ao zero absoluto de tudo o que pode sustentar a vida. É necessária uma verdadeira Vontade de Poder. Está na hora de desencadear o Eterno Retorno para que uma nova civilização renasça, como Fénix, das cinzas do inferno em que temos vivido. Chegou a hora de governar o mundo com sabedoria, cultura, conhecimento e com ética que permita ao ser humano tomar consciência de que o Éden é impossível, mas desejável dentro dos nossos limites, mas onde sempre estará o fruto proibido.