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quinta-feira, 24 de julho de 2008

Calçada de letras VII



- Ó Diogo, tu sabes o que é que quer dizer progressista?

- Progressista é aquele que quer progredir. Porque é que perguntas isso, Nuno?

- Nada, não é por nada. Acho que toda a gente gosta de progredir.

- Eu quero e por isso a minha ideia é ir outra vez para a escola, quero saber mais, para ver se deixo esta vida.

- Mas agora diz-se que ser progressista é casarem-se homens com homens e mulheres com mulheres. Não ouviste dizer isso?

- Não é bem assim, Nuno. Ser progressista é deixar que todos sejam livres para fazerem aquilo que quiserem.

- Achas bem um homem casar-se com outro homem? Que porcos!

- Eu não acho bem, Nuno, mas ninguém tem nada com isso.

- Ninguém tem nada com isso? Estás parvo, Diogo. Então se tu endoideceres, te atirares da varanda e partires os ossos, não devo preocupar-me contigo?!

- Ó Nuno, hoje todos devemos ser livres de fazer o que quisermos, já não é como antigamente.

- Olha, já viste alguma animal acasalar com outro do mesmo sexo? Nem os carneiros ou os bodes fazem coisas dessas!

- Mas nós não somos como carneiros. Sabes o que é andar em carneirada?

- Sei muito bem. Mas parece-me que quem anda em carneirada são esses que acham que um homem pode casar com outro como se fosse tudo normal.

- Ser normal ou não ser, nós é que mandamos. Estamos acima dos outros animais, temos cultura.

- A cultura não pode ser contra a natureza, Diogo. Quando há dois carneiros num rebanho põem-se logo à "cornada".

- Queres que os homens se ponham também à cornada, uns com os outros, Nuno?

- Sabes o que te digo? Afinal, a diferença não é muito grande: os carneiros dão "cornadas" antes de se juntarem às ovelhas para acasalar. Quando lês um jornal não faltam notícias de violência doméstica, agressões, mortes, ciúmes e por aí adiante. Parece-me que muita gente acasala primeiro e as "cornadas" vêm depois.

- Essa agora teve piada!

- E dizes que somos mais do que os animais, que temos cultura!

domingo, 30 de março de 2008

Calçada de Letras VI


Calçada de letras

VI


- Já não posso ver pedras nem calçadas, Nuno. Que maçada! É todos os dias a mesma coisa!
- Para onde queres ir, Diogo? O que é que queres fazer? Contenta-te com o trabalho que tens. Há muita gente por aí pior do que tu!
- Passo a vida aqui, de castigo, colado ao chão, Nuno!
- Deixa-te de lérias! Olha lá, quando é que vamos arranjar a calçada da Escola secundária?
- Não sei, talvez nas férias do Verão. Mandaram-me uma carta a explicar que a calçada não é muito urgente e que vai ser adiada.
- Olha! Ali vem outra vez o tio Chico.
- Boa tarde, passou bem?
- Menos mal, Deus te abençoe. Boa tarde para vocês também.
- Parece-me que hoje não vem com boa cara. O que é que aconteceu?
- Fui chamado outra vez à Escola, O Ricardo não tem emenda…
- O que foi, desta vez?
- Foi expulso de uma aula. Andou aos saltos em cima das mesas, partiu uma cadeira e atirou com um livro à cabeça de uma colega.
- Estás a ver, Diogo? O que é que ele anda a fazer na Escola? Ponha-o a trabalhar, tio Chico. Aperte com ele!
- Ó tio Chico, castigue-o mas dê-lhe mais uma oportunidade. Isto são fases…
- Nem sei o que hei-de fazer, Diogo. A Directora de Turma propôs que eu o obrigasse a fazer um juramento e a fazer, todos os dias, os trabalhos de casa.
- Um juramento? Que juramento?
- Tenho aqui uma proposta para eu ver e acrescentar mais alguma coisa, se quiser. Ó Diogo, não me queres dar uma ideia?
- Posso ver? Então, cá está: “Juramento do aluno Ricardo Redondo
Eu, Ricardo Marques Lopes Redondo, aluno da Escola Secundária da Ortiga:
Juro e prometo ler e cumprir o Regulamento Interno, no que diz respeito aos direitos e deveres dos alunos;
Juro que respeitarei todos os meus colegas, professores e demais pessoas que trabalham neste espaço;
Juro que me vou comportar sempre bem, quer nas aulas, quer nos espaços de convívio com os colegas;
Juro que me vou dedicar e empenhar no estudo e nas actividades das aulas;
Juro que me vou esforçar para que nunca possa ser acusado, por nenhum dos meus colegas, de os ter prejudicado no seu aproveitamento escolar;
Faço este juramento de livre vontade porque quero contribuir para a minha formação pessoal, cultural e humana e quero ajudar os outros em tudo o que for possível.”
Ó tio Chico, se conseguir que o Ricardo cumpra este juramento, vai ser um descanso.
- Não me dás mais uma ideia para eu pôr aí?
- Acho que está bem assim, tio Chico. E a ti, que te parece, Nuno?
- Tanto faz pôr como tirar, vai dar tudo na mesma. É só uma perda de tempo…

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Calçada de letras


Calçada de letras

V

- Ó tio Chico, estou a ver que você tem que por o Ricardo na linha!

- Se continuar na brincadeira e a fazer-me perder tempo ponho-o a trabalhar ao pé de mim, na carpintaria, que é um mimo!

- Isso não, tio Chico. Aperte-lhe os calos, encoste-o à parede. Pode ser que ele ganhe juízo.

- É isso mesmo, tio Chico. Obrigue-o a trabalhar. Ele precisa de saber o que custa a vida!

- Estás maluco, Nuno? Achas bem tirá-lo da escola?

- Então lê o resto da carta. Tu é que até vais ficar maluco…

- E leio:

“Declaração

Eu, Ricardo Redondo, declaro que:

Muitas vezes faço da sala de aula um espaço para brincar e conversar e não dou atenção ao que os professores dizem;

Interrompo as aulas com comentários despropositados e com assuntos que não estão relacionados com as aulas;

Me levanto sem pedir autorização aos professores e ponho papéis no caixote do lixo quando me apetece;

Muitas vezes atiro com objectos aos meus colegas só por brincadeira;

A maior parte das vezes não sou pontual e não me preocupo em evitar essas situações, o que perturba a aula quando entro na sala;

Nem sempre faço os trabalhos de casa nem trago o material necessário para as aulas;

Não sei comportar-me numa sala de aula de modo a não perturbar o trabalho dos meus colegas e dos professores e por isso sou como uma maçã podre que apodrece todas as outras;

Sei que o meu comportamento me prejudica não só a mim, mas também os meus colegas que querem estar atentos e desejam aprender;

Sei que sou responsável pelo meu comportamento e se não me porto bem a culpa é toda minha, porque se eu quiser posso portar-me bem;

Sei que, um dia, posso vir a ser responsabilizado por alguns ou por todos os meus colegas que se sentiram prejudicados nos seus estudos porque não os deixei aprender;

Em conclusão, declaro que apesar de ter 16 anos, não sei portar-me melhor do que um miúdo de dez anos, declaro que assumo todas as responsabilidades pelo meu comportamento e pelo meu aproveitamento e declaro, ainda, que aceito todos os castigos que a comunidade escolar me impuser em consequência do meu mau comportamento.

Escola Secundária da Ortiga, 8 de Janeiro de 2008”

- Estás a ver, Diogo, um aluno estroina é pior do que um fumador que empesta toda a Escola. Se proibiram de fumar, acho bem que proíbam todos os valdevinos de estorvar os que querem estudar.

- E tu, quando andavas na Escola, fazias melhor, Nuno?

- Foi por isso que não pus lá mais os pés. Mas nessa altura os professores deixavam que a canalha fizesse tudo o que lhe apetecia, eles não tinham autoridade nenhuma!…

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Calçada de letras


Calçada de letras

IV

- Nuno, para a semana vamos arranjar a calçada da Escola Secundária da Ortiga. Vou pedir informações sobre as matrículas.

- As aulas já começaram há muito tempo e o mais certo é não ires a tempo.

- Penso que ainda vou a tempo. Olha lá! Que história é essa que me contaste ontem, que os alunos não estudam e passam a vida a brincar nas aulas?

- O meu primo Ricardo estava com medo de mostrar a carta da Directora de Turma e pediu-me que a entregasse ao pai.

- Tu leste a carta, Nuno?

- Não. Mas ele mostrou-ma depois.

- E o que dizia?

- Não te sei dizer tudo, de cor, só algumas coisas. Olha, vem ali o tio Chico Redondo, ele conta-te tudo.

- Boa tarde, tio Chico. Hoje não trabalha?

- Boa tarde, Diogo. Trabalho, mas tive que ir à escola tratar dum assunto. O Nuno já sabe o que se passa.

- Então há problemas!...

- Parece que sim. Toma, se quiseres podes ver. Ficas a saber… Um dia pode ser contigo.

- Espero que não. Mas é bom estar preparado.

“Ex. Mo Senhor,

Serve a presente para informar V. Exa. de que o seu educando nem sempre observa as normas mais elementares de convivência e de respeito para com os colegas e professores, na sala de aula, impedindo, por vezes, o normal funcionamento das aulas e nem sempre é pontual. Alguns professores afirmam que não traz o caderno diário em dia, nem sempre faz os trabalhos de casa e não participa no trabalho das aulas o que prejudica gravemente o seu aproveitamento. Todos os professores se têm esforçado e empenhado o mais possível para alterar esta situação desagradável e prejudicial, não só para ele mas também para todos os alunos da turma. Sendo o senhor, encarregado de educação, igualmente responsável pelo sucesso escolar do seu filho, solicito o maior empenhamento da sua parte para que possamos melhorar o seu comportamento e aproveitamento. Compareça na Escola logo que lhe seja possível.

A Directora de Turma”

- Ó tio Chico, o rapaz anda a portar-se mesmo mal!

- Ainda não acabou. Está aí outra folha com uma declaração para eu assinar se ele não se emendar.

- Declaração?

- Sim.

- Ah! Estou a ver.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Calçada de letras


Calçada de letras

III

- Ó Nuno, Já estou a ficar farto de pedras e de calçadas! Que vida esta!...

- Que remédio tens? Não sabes fazer outra coisa…

- Um dia vais ver se não vou tirar um curso de engenheiro!

- Tu, engenheiro, Diogo? Deixa-me rir…

- Um dia vais ver. Este trabalho é duro, doem-me as costas de andar sempre no chão a alinhar pedras…

- Que remédio!

- O problema é não ter um lugar fixo para trabalhar, porque senão já estava na escola secundária.

- Também queres dar cabo da paciência dos professores?

- O que é que queres dizer com isso Nuno?

- Talvez sejas daqueles que não sabem mais do que uma criança de 10 anos…

- Por isso mesmo é que quero aprender, não sou como tu. Mas não penso em dar cabo da paciência dos professores.

- Não é isso que oiço por aí. Dizem que os professores, hoje, não têm autoridade e que os alunos não lhes têm respeito, que lhes fazem perder a paciência…

- Isso é um caso ou outro.

- No outro dia o Ricardo, o meu primo, que está no 10.º ano trouxe uma carta da Directora de Turma para o Encarregado de Educação que eu gostava que tu visses!

- Porquê, Nuno?

- Amanhã conto-te.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Calçada de Letras


Calçada de letras
II

- Nuno, estás a gostar das tuas aulas?
- Quais aulas, Diogo? Sabes muito bem que não tenho tempo para isso.
- Não te lembras daquela notícia que dizia que o governo queria dar oportunidades para quem não acabou os estudos?
- Não tenho dinheiro para comer quanto mais para livros!
- É certo que ganhamos pouco, mas… sempre podias aprender mais um bocadinho…
- Ó Diogo, mas tu achas que eu sou algum burro? Eu já aprendi muito aqui, no trabalho! O que é que pensas?
- Não gostavas de ter um diploma, Nuno?
- Que me interessa ter um papel que não me diz nada? Não gosto de fazer as coisas, mal feitas, a correr…
- Mas podias aproveitar esta oportunidade, não tens outra.
- E tu, que andas sempre a falar na escola, nem se quer lá puseste os pés! Para que é que estás sempre a falar nisso?
- Tens razão, Nuno, o tempo tem sido curto, mas ainda não desisti. Quando tiver mais tempo vou acabar o nono ano, vais ver.
- Pensas que o governo está muito preocupado que vás à escola? Tu e eu não és mais do que uma pedra de calçada no meio desta praça. Amanhã não vou conseguir saber onde é que ficou esta pedra que estou agora a assentar.
- Pois é, mas se deixares aí o buraco sem a pedra, amanhã vais notar bem onde é, ou não?
- Mas pensas que o governo quer saber se sou uma pedra ou se sou um buraco sem pedra, Diogo? Ou se sou um buraco sem estudos? Temos que nos despachar que não falta muito para a inauguração desta igreja.
- O que é que dizes desta igreja, Nuno?
- É uma igreja esquisita. Algumas pessoas não gostam muito. Uma igreja redonda!...

domingo, 8 de julho de 2007

Calçada de letras

Calçada de letras

I

– Tu já ouviste falar das Novas Oportunidades?

– Oportunidades para quê, Diogo?

– Não sei, mas acho que é para estudar?

– Eu não quero estudar, não gosto de livros. Quando ia à escola só estava à espera da hora da saída!

– Pois é! Não andas sempre a queixar-te das costas?

– Isso é verdade. Passamos todo o dia inclinados para o chão a fazer os passeios onde passam os doutores!

– Os doutores e toda a gente!

– Ai, ai as minhas costas! É cá uma dor!

– Não sabemos fazer mais nada senão partir pedra!

– E o que é que tu queres aprender mais?

– Não sei. Mas não quero passar a minha vida toda nisto. Vou saber o que é isso de Novas Oportunidades. Pode ser bom para a gente, Nuno.